A Câmara Municipal de Almada fez uma obra que muito aprecio: uma ciclovia que se estende desde a Trafaria até se perder já dentro da Costa da Caparica. Durante o ano, aos sábados e domingos, percorro-a na sua quase totalidade. Colocando de parte a crítica a certas partes do trajecto considero que é um equipamento que só peca por curto. É que eu parto de Almada velha, e de Almada até à Trafaria apenas existem uns retalhos de ciclovia no Monte de Caparica. Custa-me perceber porque não a fizeram paralelamente à Via Rápida. Levaria - tenho a certeza - a que muitas mais pessoas pegassem na bicla e fizessem um pouco de exercício físico saudável. Mas não é a ciclovia que me preocupa e que é responsável, na totalidade, por aquilo que aqui escrevo. É apenas um veículo para falar de falhas graves que uma cidade em modernização constante - Almada - tem.
Para além de uma ciclovia que se tem degradado e visto ocupada por carros e barcos na Trafaria, como se pode ver no "slideshow" acima, tem a acrescer o facto de a modernidade de Almada passar por não possuir uns balneários públicos onde os seus munícipes desvalidos possam tratar da higiene pessoal, ou seja, tomar um duche, servirem-se dos sanitários , por terem passado a ter - por via da miséria que se vai quotidianamente instalando - a rua como casa, perdidas para os bancos. Pois é, Almada até já teve balneários públicos, no tempo do Salazar. Mas há mais:
Almada sempre foi uma cidade de "esquerda", pretensamente com preocupações sociais. Mas Almada, ou melhor, a CMA não tem equipamentos onde possa acolher em emergência quem fica p`las ruas da amargura pelas razões que mencionei antes.
Passo p`lo quartel da Trafaria e questiono-me por que não é ele usado para valer a quem não tem tecto. Ele tem camaratas, beliches, casas-de-banho e refeitório. Sei que pertence ao Ministério da Defesa. Ok, então negoceie-se com o Ministério, e deixemos de ter gente a vaguear com sacos plásticos com parcos haveres pela madrugada fora. Eu passo por essa gente sem destino, todos os sábados e domingos de madrugada. E, adiantando, passo por um parque de campismo já na Costa e dou com umas casinhas engraçadas lá dentro, pequeninas e acolhedoras. Pergunto-me que razão haverá que impossibilite a construção de um pequeno "bairro" camarário onde se pudesse alojar o "sem-abrigo" acidental, aquele que nunca foi um sem-abrigo e que tem mulher e filhos, ou não. Uma casinha destas já os abrigaria, ao dia, sem direitos sobre ela, só até reencarreirar a vida. É impossível? Não é.
Almada nunca será uma cidade moderna enquanto parte da sua população viver nas "cavernas". Não são o Metro, a ciclovia e as estátuas-ferrugem que dão um ar saudável e próspero a Almada. Esse "ar" só será conquistado quando os munícipes almadenses tiverem um mínimo de vida digna, e não têm, ainda. Muito longe disso.